Leia perfil de Mineiro publicado na Tribuna do Norte em 22/07
O ano era de 1988. O momento não poderia ser mais promissor: com a
promulgação da nova Constituição, se instalava uma nova República. Mas o
clima, em muitas cidades brasileiras, entre elas, Natal, ainda não era
tão democrático. Em campanha por melhores salários, os educadores
ocuparam, em 12 de outubro, a Praça 7 de Setembro e foram recepcionados
pela tropa de choque da Polícia Militar. Os fios do carro de som foram
cortados e os sindicalistas pressionados a conter os gritos de "Geraldo,
o povo está na rua, a culpa é sua".
adriano abreu
Fernando Mineiro afirma que uma das suas principais motivações é o desejo de transformar
Geraldo
Melo era o governador nesse ano. Da manifestação, histórica na
Educação, emergiram vários nomes de esquerda. Entre os manifestantes, um
sindicalista, à época, com 32 anos, nascido em Curvelo, Estado de Minas
Gerais, e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) no Rio
Grande do Norte, em meados de 1979. Fernando Wanderley Vargas da Silva
chegou aqui em 1974, aos 17 anos, para estudar. No início da década de
80, ingressou na universidade, no curso de Biologia, e oito anos depois
iniciava sua vida político-partidária.
Em 88, um mês depois da
manifestação em frente ao Palácio Potengi, sede então do Governo
estadual, foi eleito o primeiro petista a ocupar cadeira no legislativo
municipal. Em 1992, reeleito. Do plenário da Câmara Municipal de Natal
passou, em 2002, a ocupar cadeira na Assembleia Legislativa. Agora,
disputa a Prefeitura do Natal. Mineiro, como é mais conhecido, é o
terceiro perfil que a TRIBUNA DO NORTE publica.
Em 55 anos de
vida, tem 32 anos dedicados à militância estudantil, sindical e
política. Em especial à militância de esquerda, petista. Do Mineiro dos
bancos da universidade para o Mineiro deputado, o estilo de vida mudou,
mas conserva o que mais valoriza: a inquietude, o inconformismo com as
injustiças sociais, a vontade de transformar, a aposta de mudar o mundo.
Como diz o poeta, afirma ele, "o desejo é mudar o mundo
mudado". "Essa força de estar sempre em movimento, essa ideia de
transformar", disse o parlamentar, "é algo que eu quero que nunca mude".
É um traço de sua personalidade. As experiências, seja no sindicalismo,
na militância e na política, enfatizou, lhe deram "uma visão mais
plural da vida", permitindo enxergar as lutas e os conflitos da vida "a
partir de mais ângulos".
Para Mineiro, a política é a atividade
que permite a mediação entre estado e atores da sociedade, entre os
interesses coletivos, difusos e os privados. "Ela permite fazer esse
diálogo, que é conflituoso", afirma o petista, que vive, com toda sua
vitalidade e inquietude, a política, dia após dia. A trajetória da
militância começa nos bancos da universidade.
Militando no
movimento estudantil esteve entre os quase 500 estudantes universitários
que, em 1984, ocuparam a Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande
do Norte. O protesto, que aconteceu exatos dez anos depois de chegar a
Natal, era contra o aumento de 500% no valor da refeição no Restaurante
Universitário (RU).
Em 1985, Mineiro iniciou suas atividades
profissionais, como professor da rede pública estadual, concursado. Era
professor de Ciências e Biologia. No movimento sindical, ajudou a fundar
a Central Única dos Trabalhadores (CUT), no Estado, e foi dirigente da
antiga Associação de Professores do RN (atual Sinte-RN). Foi liderando a
APRN que esteve à frente das mobilizações de 1988.
Mineiro
lembra que o ativismo político foi intenso na década de 80. Entre 1984 e
1985, quando o país debatia as Diretas Já, Mineiro estava nas ruas, nas
trincheiras dos que faziam a defesa das eleições diretas em todo o
país. À época fazia a transição do movimento estudantil para o sindical.
Os movimentos "Diretas Já" e "Fora Collor", define, "foram os de maior
densidade, participação e afirmação de cidadania no país". Um marco, a
seu ver, na consolidação da democracia.
Opinião de quem o conhece"Trata-se
de um cidadão que tem todas as credenciais técnicas, autoridade de
conhecimento da cidade e credibilidade para tornar Natal viável e
devolvê-la aos seus moradores. Além disso, tem uma capacidade peculiar
de articulação que pode definir outro rumo para a cidade e tirá-la do
isolamento".
João Maria Rodrigues economista"É
uma pessoa comprometida com as causas coletivas, que possui
sensibilidade social. É um homem ético, uma qualidade que considero
importante para a política; partidário e determinado nos seus objetivos.
Quem convive com ele conhece bem seu lado humano, solidário com os
amigos".
Marcelo Souza, bancário1 Na
campanha salarial da Associação dos Professores do RN. Na época, com um
ano de ingresso na carreira, ao lado de outros educadores, integrava a
direção da entidade, onde iniciou a militância sindical.
2 Na
manifestação de educadores na Praça 7 de Setembro, durante o governo
Geraldo Melo. Na época, o governador colocou a polícia para retirar os
manifestantes da praça. Os educadores sentaram no chão e lá
permaneceram. A polícia recuou.
3 Com
o ex-presidente Lula, em abril de 1994, na disputa presidencial, após o
Fora Collor. O evento era a "Caravana da Cidadania", uma viagem de 15
dias, de ônibus, que percorreu o Nordeste, com comício de encerramento
em Natal (RN).
FichaNome: Fernando Wanderley Vargas da Silva (Mineiro)
Idade: 55 anos
Filiação partidária: PT
Naturalidade: Curvelo (MG)
Grau de instrução: superior (Biologia, especialista em Educação)
Ocupação: professor (atualmente, é deputado estadual)
Eleições em que foi candidato: 1988 - vereador - Natal
votação: 2.897
1988 - vereador - Natal
votação: 2.468
1994 - governador - Rio Grande do Norte (PT)
votação: 44.596
1996 - vereador - Natal (RN)
votação: 5.447
2000 - vereador - Natal (RN)
votação: 4.936
2002 - deputado estadual - Rio Grande do Norte (RN)
votação: 39.963
2006 - deputado estadual - Rio Grande do Norte (RN)
votação: 22.433
2010 - deputado estadual - Rio Grande do Norte (RN)
votação: 24.718
5 perguntas para MineiroQual seu trunfo para alcançar a vitória?Primeiro,
um conjunto de propostas para debater e apresentar à cidade. Eu
acredito muito na possibilidade que o momento eleitoral oferece de
discutir os desafios da cidade. Segundo, nosso conhecimento da cidade.
Conheço razoavelmente Natal e os seus problemas, e tenho me debruçado
sobre as soluções. E, terceiro, a vinculação com o projeto nacional do
PT. Eu acredito na possibilidade de mobilizar a cidade para recuperar
esse tempo perdido.
Que cara terá sua campanha?A
cara da mudança e da renovação. A cara da necessidade de dialogar pelas
mudanças e de renovar os métodos administrativos. Vai ter a cara da
convocação para o avanço, não da voltar ao passado.
Como professor, espera ter apoio do segmento?Também.
Mas a relação que já estabelecemos como mandato, nos qualifica a ir
além dessa questão corporativa. Nesse momento, vamos discutir com a
sociedade, como um todo.
Qual o maior desafio?Natal
se transformou muito, se modernizou, mas a gestão não. É de duas três
décadas atrás. E o maior desafio nosso agora não é o outro adversário,
ou os outros que estejam à frente. É enfrentar o censo comum, que trata
político, como se tudo fosse a mesma coisa; a inércia política e essa
indiferença da sociedade.
Qual o foco central do seu discurso?A
necessidade de ter uma gestão integrada em nossa cidade, que pense
Natal, que pense a região metropolitana, que discuta as questões
imediatas e também as demandas estruturantes. Uma gestão que fuja
daquilo que chamo de imediatismo administrativo, do superficial, da
maquiagem da cidade. Além de responder às questões imediatas, você tem
que lançar bases para dotar a cidade de um desenvolvimento sustentável.